A
árvore triste. (nota sobre este nome: Estava escrevendo esta história no
pátio da escola que trabalho, quando em algum ponto que escrevia sobre ela, uma
criança chamada Alexandre se aproximou de mim, me deu um beijo e perguntou o
que fazia, eu lhe disse algo sobre a história de uma árvore, ele então me deu a
ideia de um nome, porque oras, minha história ainda não tinha nome... A árvore
triste.)
Era uma vez uma árvore...
Não, calma. Desculpe... sem essa de “era uma vez...” Porque
não foi só uma vez não.
Que tal então assim...
Eram muitas vezes... Uma árvore! Dentro de uma praça. Aquelas
seringueiras gigantescas que vão se unindo em galhos e cipós. Tão grande, tão
densa. Tão imponente e cheia de si. Naquela praça, parece que só havia a árvore.
Mas não só. Lá havia muitas coisas, como bancos, outras
pequenas árvores de médio porte que olhando de longe, parece que se escondiam e
ficavam tímidas detrás da grande seringueira.
Era uma praça comum, como qualquer outra praça... De fato para
quem não tem olho de poeta, geralmente não consegue olhar mesmo o que há por
lá. Eu mesmo, eu mesmo nunca havia reparado com esse tal olhar diferenciado.
Acontece que pra tudo tem uma primeira vez. Estava em um dia
bem ruim. Lembrando das coisas ruins que a vida me deu. Bastava uma brisa pros
olhos virarem água como o mar, bem salgadinho.
Saí do trabalho pra almoçar, mas a fome não vinha, queria
mesmo era um sorvetão daqueles que adoçam o dedão do pé. Foi o que fiz, corri
num lugarejo que vendia o tal sorvete, sentei-me de frente pra praça e comecei
a ladainha dos meus pensamentos tortos e oriundos. Deparei-me com o sal no
rosto misturado com o açúcar do sorvete.
Algo me chamou a atenção, do meio da seringueira, como um
peixe que brinca entre os corais no oceano, saindo e entrando naquelas fissuras
ou algum nome próximo disso, havia uma criança brincando entre as galhas da
árvore gigante. A criança sumia e aparecia. Feliz, brincava e degustava a
árvore como seu próprio coração.
Algo em mim parou e refletiu. O resto continuou a reclamar de
todas as mazelas da minha vida morna e aparentemente vazia.
Começou então a ser rotina na minha vida parar de frente à
árvore e degusta-la como a um quadro pintado à mão. Havia dia que a criança não estava, e outras
tantas vezes ela estava e fazia daquela árvore seu grande castelo.
Tinha dia que ele brincava tanto que só de olhar eu me
cansava, aquela árvore era tão grande perto dele... Um dia, era um ninho de
cobras que o atacavam e ele se fazia de vítima, gritava altos palavrões
tentando de desemaranhar daquelas famintas cobras. Outros tantos dias, a árvore
se tornava um grande castelo, que ele era o guarda e deveria defende-lo de
qualquer perigo eminente. Da praça toda se ouvia os gritos...
Comecei então a neste momento parar de refletir em minha vida,
para observar e me divertir com as histórias que o menino me contava. Uma mais
interessante que a outra.
No fim das contas, transformei meu almoço em hora do teatro na
praça. E não só assistia ao pequeno ator que me mostrava a vida que a árvore
tinha, quanto passei a reparar como o teatro do menino passou a incomodar a
cada grito que ele dava.
Um certo dia. Especial como qualquer outro dia especial. Uma
mulher de idade desconhecida e profissão indefinida passou e deu a ele um
livro. Muitos pensaram que talvez o menino não soubesse ler. Ele levou o livro.
Não sei qual foi o livro, mas sei que a história do dia seguinte tinha a ver
com este ato literário.
Uma semana depois, a ação se repetiu. Ele outro livro ganhou.
E a cada semana isso foi se repetindo como ensaios em um teatro. Comecei a
reparar que o repertório das brincadeiras foi aumentando. E cada brincadeira na
seringueira foi tendo cada vez mais corpo e alma. O teatro do menino da árvore
da praça era vivo. Era forte. Resistente.
Algumas pessoas com o passar do tempo foram reparando mais no
menino e no teatro que ele fazia. Repararam tanto, que um dia se incomodaram de
tal forma que para elas o maior teatro, foi quando ele ao invés de gritar e
brincar por entre os galhos da árvore, ele sentou-se e abriu um dos livros que
ganhou, começou a ler. Todos pararam para ver.
O menino começou a ler ali todos os dias. Até que um dia bem
pouco especial estava lá ele fazendo o que sempre fazia e um homem vestido
normalmente, com atitudes bem pouco normais chamou o menino, chamou muito. Ele
não ouvia, estava muito concentrado. O homem cansado de chamar, deu as costas e
mais tarde um pouco voltou com policiais. Apontou para o menino. Os policiais
pegaram o menino pelo braço. O levaram.
Aquilo não foi um teatro do menino. Aquilo foi o show deles...
Muitos acharam interessante pelas suas caras satisfatórias.
Por um mês continuei frequentando a praça na hora do meu
almoço na esperança de ver um teatro. Mas o palco estava vazio.
Thiago Leite
Março - 2017
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