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Um professor sonhador, artista em crise constante e um poeta de coração.

segunda-feira, 6 de março de 2017

A ÁRVORE TRISTE

A árvore triste. (nota sobre este nome: Estava escrevendo esta história no pátio da escola que trabalho, quando em algum ponto que escrevia sobre ela, uma criança chamada Alexandre se aproximou de mim, me deu um beijo e perguntou o que fazia, eu lhe disse algo sobre a história de uma árvore, ele então me deu a ideia de um nome, porque oras, minha história ainda não tinha nome... A árvore triste.)

Era uma vez uma árvore...
Não, calma. Desculpe... sem essa de “era uma vez...” Porque não foi só uma vez não.
Que tal então assim...

Eram muitas vezes... Uma árvore! Dentro de uma praça. Aquelas seringueiras gigantescas que vão se unindo em galhos e cipós. Tão grande, tão densa. Tão imponente e cheia de si. Naquela praça, parece que só havia a árvore.

Mas não só. Lá havia muitas coisas, como bancos, outras pequenas árvores de médio porte que olhando de longe, parece que se escondiam e ficavam tímidas detrás da grande seringueira.

Era uma praça comum, como qualquer outra praça... De fato para quem não tem olho de poeta, geralmente não consegue olhar mesmo o que há por lá. Eu mesmo, eu mesmo nunca havia reparado com esse tal olhar diferenciado.

Acontece que pra tudo tem uma primeira vez. Estava em um dia bem ruim. Lembrando das coisas ruins que a vida me deu. Bastava uma brisa pros olhos virarem água como o mar, bem salgadinho.

Saí do trabalho pra almoçar, mas a fome não vinha, queria mesmo era um sorvetão daqueles que adoçam o dedão do pé. Foi o que fiz, corri num lugarejo que vendia o tal sorvete, sentei-me de frente pra praça e comecei a ladainha dos meus pensamentos tortos e oriundos. Deparei-me com o sal no rosto misturado com o açúcar do sorvete.

Algo me chamou a atenção, do meio da seringueira, como um peixe que brinca entre os corais no oceano, saindo e entrando naquelas fissuras ou algum nome próximo disso, havia uma criança brincando entre as galhas da árvore gigante. A criança sumia e aparecia. Feliz, brincava e degustava a árvore como seu próprio coração.

Algo em mim parou e refletiu. O resto continuou a reclamar de todas as mazelas da minha vida morna e aparentemente vazia.

Começou então a ser rotina na minha vida parar de frente à árvore e degusta-la como a um quadro pintado à mão.  Havia dia que a criança não estava, e outras tantas vezes ela estava e fazia daquela árvore seu grande castelo.

Tinha dia que ele brincava tanto que só de olhar eu me cansava, aquela árvore era tão grande perto dele... Um dia, era um ninho de cobras que o atacavam e ele se fazia de vítima, gritava altos palavrões tentando de desemaranhar daquelas famintas cobras. Outros tantos dias, a árvore se tornava um grande castelo, que ele era o guarda e deveria defende-lo de qualquer perigo eminente. Da praça toda se ouvia os gritos...

Comecei então a neste momento parar de refletir em minha vida, para observar e me divertir com as histórias que o menino me contava. Uma mais interessante que a outra. 
No fim das contas, transformei meu almoço em hora do teatro na praça. E não só assistia ao pequeno ator que me mostrava a vida que a árvore tinha, quanto passei a reparar como o teatro do menino passou a incomodar a cada grito que ele dava.

Um certo dia. Especial como qualquer outro dia especial. Uma mulher de idade desconhecida e profissão indefinida passou e deu a ele um livro. Muitos pensaram que talvez o menino não soubesse ler. Ele levou o livro. Não sei qual foi o livro, mas sei que a história do dia seguinte tinha a ver com este ato literário.

Uma semana depois, a ação se repetiu. Ele outro livro ganhou. E a cada semana isso foi se repetindo como ensaios em um teatro. Comecei a reparar que o repertório das brincadeiras foi aumentando. E cada brincadeira na seringueira foi tendo cada vez mais corpo e alma. O teatro do menino da árvore da praça era vivo. Era forte. Resistente.

Algumas pessoas com o passar do tempo foram reparando mais no menino e no teatro que ele fazia. Repararam tanto, que um dia se incomodaram de tal forma que para elas o maior teatro, foi quando ele ao invés de gritar e brincar por entre os galhos da árvore, ele sentou-se e abriu um dos livros que ganhou, começou a ler. Todos pararam para ver.

O menino começou a ler ali todos os dias. Até que um dia bem pouco especial estava lá ele fazendo o que sempre fazia e um homem vestido normalmente, com atitudes bem pouco normais chamou o menino, chamou muito. Ele não ouvia, estava muito concentrado. O homem cansado de chamar, deu as costas e mais tarde um pouco voltou com policiais. Apontou para o menino. Os policiais pegaram o menino pelo braço. O levaram.

Aquilo não foi um teatro do menino. Aquilo foi o show deles... Muitos acharam interessante pelas suas caras satisfatórias.

Por um mês continuei frequentando a praça na hora do meu almoço na esperança de ver um teatro. Mas o palco estava vazio.


Thiago Leite
Março - 2017

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